Ele alcançou o topo

O brasileiro Nicandro Durante acaba de se tornar presidente mundial da British American Tobacco, uma gigante de US$ 65,5 bilhões. Em entrevista exclusiva à DINHEIRO, ele conta como chegou lá

Nº EDIÇÃO: 673 | Negócios | 27.AGO – 21:00 | Atualizado em 01.09 – 19:01

O executivo Nicandro Durante, 53 anos, passa por um ritual cultivado quase como um dogma quando recebe uma oferta de promoção na carreira. Ele se reúne com a mulher, Eliete, e seus dois filhos para pôr na mesa todos os prós e os contras de seu futuro trabalho.

“É fundamental ter um equilíbrio entre a vida familiar e a profissional”, diz Nicandro. Nos últimos 28 anos, o executivo seguiu à risca esse processo. Cada vez que recebia uma nova designação no grupo British American Tobacco (BAT), controlador da brasileira Souza Cruz, Nicandro sentava-se com a família.

“Fui promovido, em média, uma vez a cada dois anos.” Ele morou em Hong Kong, permaneceu alguns anos em Londres, voltou para o Brasil, coordenou mercados como Turquia, Oriente Médio e África, e, recentemente, ocupou o cargo de Chief Operating Officer (COO) na BAT.

Há apenas um mês, Nicandro recebeu do board da companhia um novo convite: assumir o cargo de Chief Executive Officer (CEO) da empresa, o posto mais alto da corporação no mundo.

Só que desta vez nem precisou se reunir com a família. “Não demorei cinco segundos para responder que aceitaria o cargo”, disse Nicandro, de seu escritório em Londres, com exclusividade à DINHEIRO.

No dia 1º de setembro, portanto, ele assume como Chief Executive Designate, um cargo de transição, e, em janeiro, passa a ser oficialmente o todo-poderoso de uma companhia com presença em 180 países, faturamento anual de US$ 65,5 bilhões e a 79ª maior empresa do mundo, de acordo com o ranking do jornal londrino Financial Times.

“Como brasileiro, fico muito orgulhoso”, diz Nicandro. “Sou o primeiro não inglês a comandar a BAT em seus mais de 100 anos de história.” Nicandro vai enfrentar um duplo desafio aparentemente contraditório: administrar um negócio constantemente bombardeado pelos movimentos antitabagismo e manter os resultados vistosos que o grupo BAT tem apresentado nos últimos anos.

Ele tem bagagem para cumprir essas tarefas. A receita de seu sucesso no grupo, diz Nicandro, se deve ao que ele chama de “escola Souza Cruz”. O executivo, formado em administração de empresas e economia pela PUC do Rio de Janeiro, entrou na companhia brasileira, uma das joias do grupo BAT, como gerente financeiro da fábrica de Uberlândia (MG). Desde então, passou pelas mais diversas áreas até chegar ao cargo de presidente em 2004.

“A Souza Cruz investe muito em RH e tem uma gestão excepcional”, diz. A empresa é uma das poucas que possuem o controle de toda a cadeia do tabaco – da plantação à entrega do cigarro nos pontos de venda. Isso é fundamental para quem busca entender o processo da indústria e permite aos funcionários ter uma visão mais ampla do negócio.

“Para você ter uma ideia, quando precisamos desenvolver ou melhorar o modelo de logística em alguns dos nossos mercados, nós importamos os profissionais da Souza Cruz”, diz Nicandro. A empresa, dona de uma receita líquida de R$ 5,3 bilhões e um lucro líquido de R$ 1,48 bilhão em 2009, consegue atender sozinha cerca de 250 mil pontos de venda espalhados pelo País.

“Temos mil rotas de vendas, 3,5 mil pessoas dedicadas a essa área e uma frota de 2,5 mil veículos”, diz Jorge Araya, diretor de marketing e vendas da companhia. Outro fator fundamental na formação de Nicandro e que ele acredita ter sido crucial na sua escolha como CEO é o famoso jogo de cintura. Afinal, o executivo foi forjado no Brasil, um mercado que atravessou diversas crises e pacotes econômicos ao longo das décadas. “Não tenho dúvida de que isso contou muito”, diz Nicandro.

A valorização do executivo brasileiro no mercado internacional não é um caso isolado. Um estudo publicado recentemente pela revista inglesa Human Resources, uma das bíblias do setor, mostrou quão disputados são os profissionais daqui.

A pesquisa, que contou com 22 mil trabalhadores de 18 países entrevistados, revelou que o brasileiro é o segundo mais eficiente do mundo – só perde para os indianos, mas está à frente dos americanos, canadenses e alemães.

“Os brasileiros têm um nível de flexibilidade muito grande”, diz Olavo Chiaradia, gerente de remuneração e benefícios do Hay Group. “O fato de virem de uma economia em desenvolvimento proporciona mais criatividade para inventar novos negócios.”

Nicandro, aliás, terá de explorar essa criatividade para fazer a BAT manter o forte ritmo de crescimento registrado nos últimos tempos. No ano passado, o grupo inglês viu suas vendas saltarem 17% e, desde 2000, os acionistas têm anotado bons lucros.

“Nesse período, os ganhos por ação foram de 12% ao ano e os dividendos de 15% ao ano”, diz Nicandro. Para manter esse ritmo, entretanto, o executivo terá de avançar em mercados com grande potencial de crescimento.

O caso da brasileira Souza Cruz, presidida por Dante Letti, serve para mostrar o seu desafio. Desde o início de 2005 até a quinta-feira da semana passada, suas ações pularam de R$ 22,96 para R$ 80,43, num crescimento de 250,3%.

No ano de 2010, seus papéis foram os que tiveram a maior valorização dentre todos os que fazem parte do Ibovespa. Enquanto a Souza Cruz apresentou uma valorização de 47,2%, o índice da Bovespa caiu 6,9%. “É uma empresa com lucro constante”, diz Henrique Kleine, analista-chefe da Magliano Corretora. “Com crise ou sem crise, ela consegue manter o resultado.”

Mas não se sabe até quando. Cada vez mais, fecha-se o cerco contra o tabaco no Brasil e o número de fumantes tem diminuído muito nos últimos anos. Dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) mostram que, em 1989, 30% da população brasileira era constituída por fumantes. Em 2009, a proporção passou para 15%.

“Essa indústria tem um grande problema”, diz José Roberto Martins, da consultoria de marcas GlobalBrands. “Seus produtos são indefensáveis. Não dá para fazer propaganda.” Como, então, ganhar mercado? “O tabaco tem um futuro sustentável”, diz Nicandro, afirmando que gera emprego para mais de 40 mil produtores só no Brasil.

E dá a pista de seus próximos passos. “Não me preocupo com a operação no Brasil. O que espero é que ela mantenha o nível de performance dos últimos anos.” Sua mira agora está voltada para mercados como Ásia, Turquia, Oriente Médio, Índia, África e Rússia, regiões que possuem leis mais brandas contra o tabaco – um produto malvisto e nocivo à saúde.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 100 milhões de pessoas morreram no século 20 devido ao tabaco e o cigarro poderá matar um bilhão de pessoas no século 21. Mesmo assim, em alguns países, o consumo de cigarro é muito grande. Que mercados são esses?

Na Rússia, 48,5% da população é fumante, na Turquia, 35,5%, na Índia, 16,6%. “Temos possibilidades de aquisições nessas regiões e muito potencial de crescimento”, diz Nicandro. Indagado sobre a imagem da indústria de tabaco, o executivo é enfático.

“Reconhecemos que o nosso produto apresenta risco à saúde e isso significa que administramos com responsabilidade. Inclusive, pregamos campanhas para que menores de idade não consumam nossos produtos”, diz. A tarefa de Nicandro, definitivamente, não é fácil.

Ele tem de comandar uma empresa que atua num setor que vive sob ataque. E agora a pressão sobre suas costas será multiplicada exponencialmente. “Quando eu trabalhava no Brasil, praticamente administrava um mercado”, afirma, referindo-se à participação de 62,1% da Souza Cruz.

“Agora, como CEO, vou administrar os negócios da companhia em 180 países. Neles se tem participações de mercado completamente diferentes e competidores totalmente diferentes. O grau de complexidade é muito maior.”

Para conseguir espaço em todos os países onde atua, o novo CEO da BAT aposta na inovação. E ela atende pelo nome de Convertibles, uma tecnologia desenvolvida pela própria BAT.

Trata-se de uma cápsula de menta embutida no filtro do cigarro. Caso o fumante queira sentir o sabor de menta, basta pressionar o filtro. “Esse produto fez sucesso fora do Brasil. A nossa vantagem de ser uma empresa global é que podemos trazer novidades de um país para o outro”, diz Nicandro.

A trajetória de Nicandro reflete a postura da companhia – formada por profissionais de diferentes nacionalidades. “Na nossa sede tem gente de 30 países”, afirma. Não é de espantar, portanto, que a BAT tenha brasileiros no comando de suas operações.

Ex-presidentes da Souza Cruz como Antonio Monteiro de Castro e Flávio Andrade já fizeram parte do conselho de administração da BAT e, atualmente, Andrew Gray – que, apesar do nome, é brasileiro – é diretor responsável pela África e Oriente Médio.

Nicandro chegou ao conselho, em 2006, quando foi cuidar da África e Oriente Médio, passou para Chief Operating Officer, em 2008, e acaba de subir ao topo da organização. “Viajava duas semanas por mês”, diz ele. “Agora, ficarei mais na empresa”, conta.

Pode parecer mero detalhe, mas isso é fundamental para o executivo. Ele faz questão de passar todos os fins de semana com a mulher. Suas viagens sempre são programadas para começar na segunda e terminar na sexta-feira ou, no máximo, no sábado de manhã.

Em Londres, onde vive, traçou uma rotina que não abandona. Acorda às 5h30 para correr nos belíssimos Kensington Park, Green Park ou no Hyde Park. De vez em quando, joga tênis com os amigos e, nos fins de semana, costuma assistir a óperas na Royal Opera House, da qual compra bilhetes para toda a temporada.

Nascido em Goiânia, Nicandro desembarcou com os pais, em São Paulo, aos seis meses de vida. Permaneceu na capital paulista até os 18 anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Hoje é um cidadão do mundo. Londres, diz ele, é uma cidade magnífica. “Estou aqui há quatro anos e minha adaptação tem sido fácil”, afirma. Mas sente muita falta do Brasil.

“Continuo corintiano e adorando feijoada.” E prossegue com uma expressão em inglês, idioma que frequentemente mistura com o português quando está falando, para se autodefinir. “You can take the boy out of the country, but you cant’t take the country out of the boy” (“Você pode tirar o garoto do país. Mas não pode tirar o país do garoto”, numa tradução livre).

Share
Close Menu